Wednesday, February 22, 2017

Mais uma poesia de Rimbaud

Sensation

Arthur Rimbaud

Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue :
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien :
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.

Sensação

Nos entardeceres azuis de verão irei pelos caminhos,
Entremeado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei seu frescor sob minha pele.
Deixarei que o vento banhe minha cabeça desnuda.

Não falarei nem pensarei nada,
Porém, o amor infinito ascenderá em minha alma,
E irei longe, muito longe, igual a um boêmio,
Pela Natureza, feliz como junto a uma mulher.

Ilustração: O Martelo. 

Tuesday, February 21, 2017

Uma poesia de Armando Roa Vial

A LA MANERA DE JOHANNES BOBROWSKY               

Armando Roa Vial

De par en par nos abrieron las palabras.
Las palabras, con sus lívidos desechos,
saltando de boca en boca,
dejándonos a la intemperie,
cambiándonos de soledad.
Nada cede su sitio a este frío,
a esta vasta sombra, a esta noche interminable
de palabras viciando las cosas.

Lo sonoro nos invade por todas partes.

Ahora que las palabras nos han arrebatado
la dicha de enmudecer.

À MANEIRA DE JOHANNES BOBROWSKY

De par em par nos abriram as palavras.
As palavras, com seus pálidos resíduos,
saltando de boca em boca,
deixando-nos à intempérie,
transformando-nos em solidão.
Nada dá lugar a este frio,
a esta vasta sombra, esta noite interminável
de palavra viciando as coisas.

O som nos invade por todas as partes.

Agora que as palavras no foram arrebatadas
a felicidade está em emudecer.

Ilustração: eBay


Uma poesia de Juan Carlos Galeano

NUBES                                                    
Juan Carlos Galeano

Mi padre se vino a vivir al Amazonas para enseñarles a los indios
a armar rompecabezas con las nubes.

Para ayudarle,  todas las tardes mi hermano y yo
corremos tras las nubes desocupadas que pasan allá arriba.

Las nubes aparecen y desaparecen como si fueran pensamientos.

Cerca de nuestra casa muchos indios hacen cola
para armar rompecabezas con las nubes que les son más familiares.

Aquí unas nubes se parecen a los árboles,  y otras les recuerdan los pirarucús.

Por allá los indios buscan una nube para completarle la cabeza a un armadillo.

"Con el agua de los ríos y los juegos de ciudad",  les escribe mi padre
a sus amigos, "nuestros indios se divierten y aprenden a pensar".

A mi hermano y a mí nos gustaría mejor que las nubes se volvieran merengues
para comérnoslas con leche a la hora de la cena.

NUVENS

Meu pai foi viver na Amazônia para ensinar os índios
a armar quebra-cabeças com nuvens.

Para ajudá-lo todas as noites eu e meu irmão
Corremos atrás das nuvens desocupadas que passavam lá em cima.

As nuvens aparecem e desaparecem como se fossem pensamentos.

Perto de nossa casa muitos índios fazem fila
Para armar quebra-cabeças com as nuvens que lhes são mais familiares.

Aqui algumas nuvens se parecem com as árvores, e outras lembram os pirarucus.

Lá os índios procuram uma nuvem para completar a cabeça de um tatu.

"Com a água dos rios e jogos da cidade", escreve meu pai
para seus amigos, "nossos índios se divertem e aprendem a pensar".

A meu irmão e a mim gostaríamos mais que as nuvens fossem suspiros para comê-los com leite na hora do jantar.


Ilustração: Blog Graciliano On-line

Friday, February 17, 2017

Uma poesia de Musset

CHANSON                                                                     
Alfred de Musset

Lorsque la coquette Espérance
Nous pousse le coude en passant,
Puis à tire-d’aile s’élance,
Et se retourne en souriant;

Où va l’homme ? Où son coeur l’appelle.
L’hirondelle suit le zéphyr,
Et moins légère est l’hirondelle
Que l’homme qui suit son désir.

Ah ! fugitive enchanteresse,
Sais-tu seulement ton chemin?
Faut-il donc que le vieux Destin
Ait une si jeune maîtresse!

CANÇÃO

Quando a sedutora esperança
Nos acotovela de passagem, indo
Depois, rápido, com a asa se lança,
E se volta, sorrindo

Onde vai o homem? Onde seu coração o encaminha.
A andorinha segue o vento em seu bafejo,
E é menos ligeira a andorinha
Que o homem que segue o seu desejo.

Ah! Fugitiva feiticeira,
Sabes mesmo para onde vais?
Ou precisa que o velho destino queira
Ter uma jovem amante, ou mais!


Thursday, February 16, 2017

Mais uma poesia de Elizabeth Barret Browning


How Do I Love Thee?

Elizabeth Barrett Browning

How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of every day's
Most quiet need, by sun and candlelight.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

Como eu te amo?

Como eu te amo? Deixa-me falar os caminhos.
Eu te amo com profundidade, largura e altura
Que a alma pode alcançar, ao te sentir, do olhar, fora,  
Como a finalidade de ser e a graça ideal.
Eu te amo com o mérito de todos os dias
Com necessidade, à luz sol e das velas, quieto
Eu te amo livremente, como um homem tenta ser direito;
Eu te amo puramente, como se fosse uma prece.
Eu te amo com toda paixão que se pode ter sentido
Com minhas velhas doenças, e,de uma criança, a fé imensa.
Eu te amo com um amor que parecia ter perdido
Sorrisos, lágrimas e toda a minha vida! E, se Deus quiser,
Com meus santos soltos, eu te amo como respiro a brisa,
Eu te amarei melhor depois da morte até.

Ilustração: Recados. 


Wednesday, February 15, 2017

Uma poesia de Edgar O'Hara

NO TE VAYAS SIN CONOCER EL AMOR    

Edgar O´Hara

No te vayas sin conocer el amor.
Puede venir dentro de poco, me parece
que estuviera merodeando.
Creo que dejó algunas palabras en la humedad
pero el sol se las bebe aprisa.
Tengo la corazonada, algo me lo dice.
No te vayas sin antes oír por la mañana
el jadeo
de la tortuga que se alimenta de las horas.
¿O quizá estuvo aquí todo este tiempo?
¿Tal vez llegó contigo?
Temeroso del crujir en las maderas,
¿mastica su filigrana en un rincón?
Ahora quién podrá saberlo.
Se hace tarde y esta luz prefiere un escondite.
No te vayas, acaso la duda te siga
en otro susurro. Quédate
un poco más, deja que te mire
y aprenda en alabanza.

NÃO TE VÁS SEM CONHECER O AMOR

Não te vás sem conhecer o amor.
Pode vir dentro de pouco, me parece
que estivera arrodeando.
Creio que deixou algumas palavras na umidadd
porém o sol as bebe rapidamente.
Tenho um pressentimento, algo me diz.
Não te vás sem antes ouvir pela manhã
o arquejo
da tartaruga que se alimenta das horas.
Ou, quem sabe, esteve aqui todo tempo?
Talvez chegou contigo?
Temeroso de cruzar as madeiras,
mastiga sua marca em um canto?
Agora quem poderá sabê-lo.
Se fez tarde e esta luz prefere um esconderijo.
Não te vás, acaso a dúvida te siga
em outro sussurro. Fica
um pouco mais, deixa que te olhe
e aprenda a louvar.


Ilustração: Mensagens com amor. 

Uma poesia sobre o Rio de Blaise Cendrars



Rio de Janeiro

Blaise Cendrars

Une lumière éclatant inonde l'atmosphère
Une lumière si colorée et si fluide que les objets qu'elle touche
Les rochers roses
Le phare blanc qui les surmonte
Les signaux du sémaphore me semblent liquéfiés
Et voici maintenant que je sais le nom des montagnes qui entourent cette baie merveilleuse
Le Géant couché
La Gavéa
Le bico de Papagaio
Le Corcovado
Le pain de Sucre que les compagnons de Jean de Lévy appelaient le Pot de Beurre
Et les aiguilles étranges de la chaîne des Orgues
Bonjour Vous


RIO DE JANEIRO

Uma luz resplandecente inunda a atmosfera
Uma luz colorida e fluída como os objetos que ela toca
As rochas rosas
O farol branco que as supera
Os sinais de semáforo que parecem liquefazer-se
E aqui agora eu conheço os nomes
Destas montanhas
Que rodeiam esta baía maravilhosa
O Gigante reclinado
A Gávea
O Bico de Papagaio
O Corcovado
O Pão de Açúcar que os companheiros de Jean de Léry
Chamam  de Pote de Manteiga
E picos estranhos da cadeia dos Órgãos
Bons dias Vocês.


Ilustração: aloriodejaneiro. 

PRETENSÃO


Que esta vida é uma viagem sem volta
todos nós sabemos.
O que não sabemos muito bem
(embora a certeza seja quase total)
É se há algum passageiro
capaz de não pagar passagem 
com a moeda do longo esquecimento, 
quando finda a viagem. 
Pelo que sei, não. 
Mas, sempre alimento a ilusão 
de que, apesar das evidências em contrário, 
possa escrever um diário
contando que sou o primeiro. 

Ilustração: filmtrailer

Tuesday, February 14, 2017

DUAS POESIAS DE FEDERICO HERNÁNDEZ AGUILAR

PALABRA Y TIEMPO                              
(Paréntesis kantiano)

Federico Hernández Aguilar

Para callar no necesito mi silencio.

Me muevo.
Se mueve la hoja que cae y no lo sabe.
El aire es la denuncia natural del tiempo.

Para callar no necesito mi silencio.

No puedo remover una pestaña
sin tocar un rostro.
La palabra es injusta si la tengo.

Para callar no necesito mi silencio.
Necesito tiempo.

PALAVRA E TEMPO

(Parênteses kantiano)

Para calar não necessito de meu silêncio.

Me movo.
Se move a folha que cai e não sabe.
O ar é a denúncia natural do tempo.
Para calar não necessito meu silêncio.

Não posso remover uma sobrancelha
sem tocar um rosto.
A palavra é injusta se a tenho.

Para calar não necessito meu silêncio.  
Necessito de tempo.


EDAD DEL INSOMNIO

Federico Hernández Aguilar

Entendí que la lluvia muere
cuando escuché al agua decir: “Ya voy”.

Hay quien piensa que se puede mirar a un pato
y no sentir cosquillas en los dedos de los pies.

Tu retrato no escucha la gotera.
Eso es seguro.

IDADE DA INSÔNIA

Entendi que a chuva morreu
quando escutei a água dizer: “Já vou”.

Há quem pensa que pode olhar a um pato
e não sentir coceira nos dedos dos pés.

Teu retrato não escuta a goteira.
Isso é seguro.

Ilustração: revista fevereiro - "política, teoria, cultura"

Uma poesia de Fernando Linero


NO CABE LAMENTARSE

Fernando Linero

No cabe lamentarse de aquello que está más allá
del estrecho límite de los sentidos.
Sé que la realidad no es más que esos cristales opacos
que sólo dejan pasar un resplandor difuso.
Pero aún siendo un destello en la noche del tiempo
yo que fui una posibilidad entre infinitas posibilidades
siento al verano hablar a través de los frutos
y es como el peso de la luz sobre la más íntima anarquía.

No cabe lamentarse de los dones del mundo.
He amado la música, ese intersticio azul entre las hojas.
He amado el mar, la noche, los caminos.
No cabe lamentarse si el verso crece como un árbol
y hay almas que comen de su pan.

NÃO CABE LAMENTAR-SE

Não cabe lamentar-se daquilo que está mais além
do estreito limite dos sentidos.
Se é que a realidade não é mais que esses cristais opacos
que só deixam passar um resplendor difuso.
Porém, ainda que sendo um destelar da noite do tempo
eu que fui uma possibilidade entre infinitas possibilidades
sinto o verão falar através dos frutos
e é como o peso da luz sobre a mais íntima anarquia.

Não cabe lamentar-se dos dons do mundo.
Tenho amado a música, este interstício azul entre as folhas.
Tenho amado o mar, a noite, os caminhos.
Não cabe lamentar-se se o verso cresce como uma árvore
e há almas que comem de seu pão.


Monday, February 13, 2017

Uma poesia de Gérard de Nerval

Une allée du Luxembourg                                
Gérard de Nerval

Elle a passé, la jeune fille
Vive et preste comme un oiseau
À la main une fleur qui brille,
À la bouche un refrain nouveau.

C'est peut-être la seule au monde
Dont le coeur au mien répondrait,
Qui venant dans ma nuit profonde
D'un seul regard l'éclaircirait !

Mais non, - ma jeunesse est finie ...
Adieu, doux rayon qui m'as lui, -
Parfum, jeune fille, harmonie...
Le bonheur passait, - il a fui !


Uma avenida de Luxemburgo

A jovem moça passou, rápida e diligente
Ante mim, como passam tantos pássaros;
E na mão uma flor resplandecente
E uma nova canção entre os lábios.

Talvez ela tivesse unicamente
Um coração capaz de ouvir o meu;
Talvez entrando em minha profunda noite
Pudesse iluminá-la com os olhos tão seus.

Mas não... Minha juventude nem mais lembrava...
Adeus, doce fulgor que deslumbrava!
Oh! Perfume, jovem moça, oh! harmonia...
Vi a sorte passar... e de mim fugia!


Ilustração: Carol Burgo